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Normalidade e anormalidade na ciência:
Popper versus Kuhn

por Kleber Vinicius Gonçalves Feio
 Ex-aluno da ceg, Professor da SEDUC e aluno do curso de especialização em Epistemologia do Departamento de Filosofia da UFPA

(...) Existe um grande elemento subjetivo no processo pelo qual as idéias científicas passam a ser aceitas (...). Tudo isso é uma velha história para os cientistas (apesar de os filósofos e historiadores escreverem como se fôssemos completamente ingênuos a esse respeito).
                                                                          Steven Weinberg
1

 

Karl Popper abre sua palestra intitulada A ciência normal e seus perigos, reconhecendo que a crítica de Thomas Kuhn à sua concepção de ciência é a mais interessante que ele tinha encontrado. Popper diz, no decorrer de sua exposição, que ele tinha sentimentos de gratidão a Kuhn, pois, segundo Popper, o Professor Kuhn havia aberto os seus olhos para uma série de problemas que ele (Popper), “não tinha visto com clareza”.2 Popper reconhece, ainda, de forma bastante contundente, que, “a ciência ‘normal’, no sentido de Kuhn, existe”.3


A despeito de algumas semelhanças entre estas duas epistemologias, a de Popper e a de Kuhn, como, por exemplo, a recusa do método indutivo, há, entre elas, graves divergências. O “estereótipo metodológico da falsificação”4 é tão inadequado para descrever a atividade normal da pesquisa em Kuhn, como o é, para Popper, a tese segundo a qual “ ‘normalmente’ temos uma teoria dominante”5. Para Popper, o cientista é um “solucionador de problemas”, para Kuhn, o cientista é um “solucionador de enigmas”. A similaridade entre o termo popperiano “problema” e o kuhniano “enigma” é apenas aparente, como o próprio Kuhn chama a atenção em seu ensaio Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa?.


Popper desconfia de uma possível similaridade entre o uso do termo “enigma” em Kuhn e o seu emprego em Wittgenstein. Consideramos improcedente essa sugestão, e isso, por duas razões. Em primeiro lugar, o uso do termo “enigma”, que em Wittgenstein, como o próprio Popper observa, é sinônimo de “problema filosófico”, só se aplica à filosofia, não à ciência, e Kuhn aplica o termo exatamente onde Wittgenstein não o aplicaria. A ciência natural, onde há problemas genuínos, não trabalharia com “enigmas”, no sentido de Wittgenstein. A não ser que admitamos que Kuhn faz uma inversão do sentido de “enigma” em Wittgenstein, não poderemos entender os enigmas, com os quais o cientista normal trabalha, como sendo enigmas wittgensteinianos. Em segundo lugar, tanto no primeiro, como no segundo Wittgenstein, os enigmas são sinônimos de contra-sensos. No Tractatus, Wittgenstein diz que “o enigma não existe” (TLP 6.5). Em outras palavras, o pensador austríaco quis mostrar que os filósofos, por não compreenderem corretamente o funcionamento da nossa linguagem, sempre propuseram pseudoproblemas. Os problemas filosóficos seriam falsas questões. Respondê-las seria tão absurdo quanto o é formulá-las. O segundo Wittgenstein mantém esse ponto de vista ao dizer que “a filosofia deixa tudo como está” (PI §124). Ainda nas Investigações filosóficas, Wittgenstein diz que a tarefa legítima da filosofia é “mostrar à mosca a saída da garrafa”, isto é, mostrar que os problemas filosóficos, suas soluções ou “saídas”, são ilusórias. A filosofia teria sido “enfeitiçada” pela linguagem.


Não pensamos que, nesse ponto, Kuhn seja wittgensteiniano, embora o seja em outro, como adiante mostraremos.


Independentemente dessa sugestão infeliz (que se reduz a uma nota de rodapé do ensaio Os perigos da ciência normal), com a qual nem o próprio Popper se compromete, pois diz não saber se a comparação procede, Popper compreedeu corretamente o sentido Kuhniano de “enigma”, ou, pelo menos, o que nele há de fundamental. Popper compreende que o cientista “normal”, de Kuhn, enfrenta problemas de rotina, problemas de aplicação do paradigma e não problemas “fundamentais”, já que ele não testa o paradigma. É este, basicamente, o sentido de “enigma” em Kuhn.


A diferença que Kuhn estabelece entre a sua concepção de “enigma” e a concepção popperiana de “problema” é esclarecedora. Também em uma nota de rodapé, a nota 7 do ensaio Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa?, Kuhn comenta o assunto. Ele diz que a similaridade entre os dois termos em questão “disfarça uma divergência fundamental”6. Kuhn observa que os “problemas” da ciência em Popper ocorrem devido a dificuldades e contradições da teoria. O cientista, em meio a estas dificuldades, tem suas expectativas decepcionadas e, por isso, precisa apresentar uma solução para o problema descomprometida com a tradição. Os “problemas” de Popper comprometem os modelos teóricos em vigor, questionam aspectos fundamentais da teoria e prática científica, é este, basicamente, o cientista como “solucionador de problemas” em Popper. Kuhn compreendeu muito bem a posição de Popper sobre o assunto. O cientista “normal”, de Kuhn, contudo, enquanto “solucionador de enigmas”, está preocupado apenas com problemas ordinários, problemas de aplicação do paradigma. Nunca está em questão, para o cientista normal, a validade do paradigma. A “matriz disciplinar”7, pelo menos no que nela há de fundamental, permanece intocada nos testes realizados pelo pesquisador “normal”. Os “enigmas”, de Kuhn, são desafios ao cientista e não à validade da teoria. Nas palavras do próprio Kuhn, “é ele (o cientista) quem está em dificuldade, não a teoria vigente”8. Os “enigmas” da ciência podem ser comparados, segundo Kuhn, a “enigmas de palavras cruzadas ou charadas de xadrez”9, que desafiam apenas a habilidade da pessoa, não as regras do jogo. No capítulo sete da Estrutura das revoluções científicas, Kuhn ilustra este pensamento por meio do adágio popular: “quem culpa suas ferramentas é mau carpinteiro”10. Desse modo, o fracasso do pesquisador em apresentar uma solução para um problema da pesquisa “normal” desacredita somente o cientista, não a teoria.


Segundo Kuhn, o conceito de ciência de Popper obscurece o que há de mais peculiar na pesquisa “normal”. Sir Karl – é assim que Kuhn se refere a Popper no ensaio crítico em questão – teria caracterizado a prática científica não com o que nela há de mais comum e sim, justamente, com o que muito raramente acontece na ciência, a saber, o debate crítico em torno da validade da teoria vigente. Kuhn se diz descontente com o termo popperiano “falseamento”, pois o cientista “normal” teria um compromisso profundo com a tradição. A “falseabilidade” de Popper descompromete o pesquisador com as crenças tradicionais de sua especialidade de estudo. Segundo Kuhn, a história da ciência seria o melhor contra-exemplo das idéias de Popper, suficiente para desmentir-lhe a opinião. Popper cita com freqüência, observa Kuhn, autores como Copérnico, Lavoisier e Einstein, por exemplo, mas ele ignoraria o fato de que as realizações científicas destes homens são episódios raríssimos na história da ciência. Caracterizam momentos especiais da ciência, não seu estado de normalidade. São situações “extraordinárias” e não situações “normais”. É por isso que Kuhn estabelece a distinção fundamental entre “ciência extraordinária” e “ciência normal”.


A prática científica, tal como Popper a descreve, ocorre, de fato, segundo Kuhn, mas só “de vez em quando”11. Quando surge, por exemplo, uma anomalia, um “fenômeno para o qual o paradigma não prepara o investigador”12, ocorre o que Kuhn chama de crise da ciência normal. Isso não significa dizer que o aparecimento de contra-exemplos implicará, de imediato, a rejeição do paradigma. Os cientistas concebem articulações ad hoc, sem o menor pudor, para salvar o paradigma. Diante de uma anomalia o cientista tende a pensar que é sua pesquisa que está errada, não o paradigma. Ele foi educado para pensar assim. Por isso, o cientista usará todos os artifícios necessários com o fim de adequar o novo caso ao paradigma dominante, ainda que ele precise recorrer ao tão criticado por Popper, estratagema convencionalista ad hoc.


A ciência normal, segundo Kuhn, é um empreendimento não dirigido para novidades. O cientista normal não está interessado em novas teorias e é, em geral, intolerente com seus colegas que ousam apresentar novidades. O único tipo de novidade aceito é aquele que aumenta o alcance e a precisão com que o paradigma é aplicado. O cientista normal tem compromissos conceituais, teóricos, metodológicos e instrumentais com o grupo do qual faz parte. Sua tarefa é resolver “quebra-cabeças”, isto é, articular melhor o paradigma com a realidade. No capítulo cinco da Estrutura das revoluções científicas Kuhn chega a dizer que quando a ciência normal é bem sucedida, ela não encontra novidades. A novidade seria, por isso, uma ameaça à ciência normal. Seu progresso depende da ausência total de novidades estruturais. É a ausência de novidades que nos permitiria considerar a ciência normal como um empreendimento altamente cumulativo.


Os momentos de crise, contudo, segundo Kuhn, obrigam os cientistas a se tornarem filósofos. Os cientistas, em geral, não se interessam por filosofia, nem precisam se interessar. Nos perídos pré-paradigmáticos, entretanto, quando é imperativo que o pesquisador escolha entre teorias concorrentes, ele se comporta como filósofo. A escolha do novo paradima está mais ligada à capacidade de convencimento que à objetividade, no sentido clássico. O novo paradigma aceito, em relação ao anterior, seria incomensurável13.


Tendo em mente os conceitos básicos da epistemologia de Kuhn apresentados acima, podemos entender a sua tese central do ensaio Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa?, a saber, de que elementos psicológicos e sociológicos são determinantes na produção científica normal. Não são aspectos lógicos ou metodológicos da ciência os responsáveis pelo progresso científico e sim os sistemas de valores e as ideologias, do lado psicológico, e as instituições que transmitem esse sistema de valores, do lado sociológico. Nesse sentido, uma lógica da descoberta seria totalmente improdutiva para dar conta do progresso científico.


Até aqui nossa exposição foi mais uma apresentação das réplicas de Kuhn a Popper, que a apresentação da tréplica de Popper. Mas seria inadequado falar do ensaio de Popper Os perigos da ciência normal sem comentar o texto de Kuhn que o motivou a escrever a referida tréplica.


Em primeiro lugar, a crítica segundo a qual Popper ignorou a diferença entre o que Kuhn denomina “pesquisa normal” e “ciência extraordinária” não procede.


É claro que a obra The logic of scientific discovery, de Popper, foi publicada antes da The structure of scientifc revolutions, de Kuhn, mas mesmo antes de Kuhn ter publicado sua principal obra, Popper não ignorava a existência, na atividade científica, de uma certa “estrutura organizada de suposições”, que bem podem ser chamadas paradigmas, no sentido de Kuhn. O prefácio de 1934 da Lógica de pesquisa científica é suficiente para confirmar isso. Lá, ao diferenciar o cientista do filósofo, Popper mostra que os dois estão em posições muito diferentes. Isso porque o filósofo se assemelharia a alguém diante de um amontoado de ruínas, enquanto o cientista vê-se diante de uma estrutura organizada, com situações-problema bem definidas, com doutrinas científicas já existentes e admitidas como tal. Popper reconhece, contudo, que, na época em que publicou a referida obra, ele tinha apenas uma obscura consciência da distinção entre o que Kuhn chama “normal” e “extraordinário” na ciência.


Popper foi um defensor do método hipotético-dedutivo, que pode ser ilustrado no esquema abaixo:



P1 representa o problema do qual o cientista parte; T. T. se refere às tentativas de solução; E. E. representa a eliminação do erro e, finalmente, P2 refere-se aos novos problemas resultantes da nova teoria.


O mote da obra Lógica da pesquisa científica, extraído de Novalis, diz “as hipóteses são redes: só quem as lança colhe alguma coisa”. O cientista, segundo Popper, sempre parte de uma conjectura, de uma hipótese, portanto, de um referencial. Nesse sentido, os referenciais desempenham um papel fundamental na investigação científica. Contudo, não se deve, segundo Popper, entender a importância que têm os referenciais como se eles fossem dogmas com os quais os cientistas devem se comprometer. No ensaio Os perigos da ciência normal, Popper retoma um argumento já desenvolvido em um ensaio seu intitulado O mito do contexto, argumento esse que combate a idéia, segundo a qual, os “pressupostos básicos” não devem ser discutidos para que haja progresso na ciência.. Ao falar de “contexto” (Framework), estrutura ou referencial, Popper está pensando, principalmente, na ciência normal de Kuhn. O que Popper chama de mito do contexto é definido como um pensamento que defende a seguinte tese:

A existência de uma discussão racional e produtiva é impossível, a menos que os participantes partilhem um contexto comum de pressupostos básicos ou, pelo menos, tenham concordado em semelhante contexto em vista da discussão14.

 

Contra este pensamento, Popper sustenta que o aumento do conhecimento depende da discordância, não do dogmatismo de ter que aceitar um referencial comum. Culturas diferentes, são, por exemplo, diferentes “contextos”, mas não constituem barreiras intransponíveis. Dizer que, em ciência, “pressupostos básicos” e “princípios fundamentais” não devem ser discutidos, seria incorrer em um irracionalismo. Com ou sem razão, Popper acusa Hegel de ter sido o primeiro filósofo pós-kantiano a defender o mito do contexto. Talvez Popper estivesse pensando, ao fazer esta acusação, no conceito de Zeitgeist, isto é, Espírito do tempo.


Segundo Popper, a ciência segue a tradição crítica inaugurada pelos filósofos jônicos. Os jônicos teriam dado uma contribuição indelével à história da ciência ao adotarem o que Popper chama de “método crítico”. Estes pensadores não reproduziam as explicações de seus mestres. Preservaram o método crítico justamente por desviarem-se de seus mestres.


Para Popper, o verdadeiro cientista não é o “cientista normal” de Kuhn. Segundo Kuhn, o cientista não é educado para contestar o paradigma, os manuais o preparam simplesmente para reproduzi-lo. Kuhn observa que os manuais diferem apenas no aspecto pedagógico, não na estrutura conceitual. Os estudantes universitários de alguma ciência nem sequer lêem os clássicos. Deste modo, os manuais produzem o que Kuhn chama de Einstelungen, isto é, as “predisposições mentais” dos futuros cientistas. Embora Kuhn reconheça o grave erro deste tipo de educação, pois, no capítulo nove do livro Tensão essencial ele se mostra disposto a considerá-la um “anátema”, Kuhn diz que é este tipo de educação que prepara o “cientista produtivo”. Se for verdade que o cientista produtivo é alguém sem senso crítico e que está disposto a defender o paradigma a todo custo, mesmo se for necessário recorrer a hipóteses ad hoc, Kuhn deveria aceitar a conclusão inequívoca que se segue deste raciocínio: A comunidade científica é, fundamentalmente, uma comunidade de falaciosos. Sabemos, contudo, que Kuhn jamais aceitaria esta conclusão, embora ela seja forçosa, se admitirmos suas premissas.


Como já dissemos, Popper reconhece que a tal “ciência normal” existe. Contudo, ele nega que esse tipo de “ciência” seja, de fato, normal. Segundo Popper, o “cientista normal” foi mal ensinado, “foi ensinado com espírito dogmático: é uma vítima da doutrinação”.15 O verdadeiro cientista é aquele que foge da rotina por meio de um esforço crítico. Contra a comunidade científica fechada em seu referencial, Popper diz que o compromisso com o um paradigma é uma perigosa ideologia. Os referenciais ou contextos, são, para Popper, como “prisões”. A comunidade científica não pode ser fechada, tampouco autoritária. Fundamentos e princípios devem ser discutidos, mesmo que isso contrarie o mito do contexto.


Popper tem uma avaliação oposta a opinião de Kuhn sobre as pessoas que vivem em um contexto fechado. O pesquisador que não consegue se orientar sem a imposição dogmática de um referencial não tem nada de “produtivo”, como quer Kuhn. Segundo Popper, “o cientista ‘normal’, tal como Kuhn o descreve, é uma pessoa da qual devemos ter pena”.16 A concepção kuhniana de ciência, segundo Popper, conduz a um relativismo e, por isso mesmo, ao irracionalismo. O físico Steven Weinberg, no capítulo intitulado Contra a filosofia (capítulo dez) de seu livro Sonhos de uma teoria final, também se queixa do relativismo de Kuhn. Weinberg reconhece o mérito do conceito de “revolução científica”, tal como Kuhn o apresentou, mas não se reconhece na ingenuidade do “cientista normal”.


Pessoas que vivem em um contexto fechado, segundo Popper, têm uma visão de mundo que não pode ser abalada. Esse comportamento pretensamente científico foi duramente criticado por Popper em seu livro Conjecturas e refutações. Nesta obra, Popper denomina as pesquisas que seguem esta orientação de verificacionistas. O verificacionismo caracteriza-se pela interpretação dogmática dos fatos “à luz da teoria”. Para um cientista verificacionista qualquer contra-exemplo pode ser encaixado, de algum modo, na teoria. Qualquer contra-argumento também pode ser rebatido “à luz da teoria”. É clássica a acusação de Popper de que Marx, Freud e Adler tenham sido verificacionistas.


Segundo Popper, no início do século XX, o marxismo, a psicanálise e a “psicologia individual” eram tidos como ramos da ciência com um sucesso maior que a teoria da relatividade de Einstein. Popper, contudo, diz que ele desconfiava da capacidade de explicação destas três teorias. Elas pareciam explicar praticamente tudo em seus devidos campos. A psicanálise, por exemplo, parecia ter uma objetividade de dar inveja a um físico. Além disso, os seguidores das idéias de Marx e Freud, por exemplo, eram, segundo Popper, extremamente intolerantes com os críticos. Os críticos de Marx eram vistos como motivados por um “interesse de classe” e os críticos de Freud, como vítimas de “repressões ainda não analisadas”. As pessoas que se dedicavam a estas teorias pareciam, segundo Popper, ter se “convertido” a uma nova verdade: viam o mundo inteiro repleto de verificações da teoria. Segundo Popper, contudo,“é fácil obter confirmações ou verificações para quase toda a teoria – desde que as procuremos”.17 Esse tipo de “confirmação” torna a teoria imune às críticas e, portanto, irrefutável. A irrefutabilidade, segundo Popper, “não é uma virtude, como freqüêntemente se pensa, mas um vício”.18


Embora Kuhn também não admitisse a cientificidade do marxismo ou da psicanálise, o comportamento do “cientista normal” em relação ao paradigma é similar ao do pesquisador verificacionista, descrito por Popper; o dogmatismo do “contexto” é o mesmo: todos os casos podem ser analisados à luz da teoria.
Para Popper, o relativismo de Kuhn compromete de forma contundente a racionalidade da ciência. Kuhn nunca reconheceu-se como relativista, mas, de fato, não parece ter dado uma resposta satisfatória a seus críticos quanto à esta acusação. O relativismo é, segundo Popper, a tese lógica defendida por Kuhn. Não é uma psicologia da pesquisa que Kuhn desenvolve, segundo Popper, e sim uma tese lógica, a tese do relativismo histórico, ainda que seja uma tese equivocada. Para Popper, a ciência progride, de fato, mas não por se submeter a um paradigma ideológico, e sim, em função do método da refutabilidade. Assim, para Popper, a comunidade científica é contituída por uma comunidade de pesquisadores, cada um dos quais disposto a criticar, tão intensamente quanto possível, a afirmação dos demais. Essa é a única ciência legítima, renunciar este comportamento seria renunciar à racionalidade.


notas

  1. Weinberg foi o ganhador do prêmio Nobel de Física em 1979 por seu trabalho de unificação de duas forças fundamentais da natureza. A epígrafe foi retirada do seu livro Sonhos de uma teoria final (WEINBERG, S. Sonhos de uma teoria final: a busca das leis fundamentais da natureza. Rio de Janeiro: Rocco: 1996. p. 146) voltar   
  2. POPPER, K. A ciência normal e seus perigos in LAKATOS, I. e MUSGRAVE, A. (org.) A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979 p. 64.voltar


  3. Ibidem.
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  4. KUHN, T. A tensão essencial. Lisboa: Edições 70, 1989. p. 08.
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  5. POPPER, Op. Cit, p. 68.
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  6. KUHN, T. Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa, in LAKATOS, I. e MUSGRAVE, A. (org.) A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979 p. 10.
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  7. Kunh introduz o conceito de “matriz disciplinar” no posfácio de 1969 da sua obra A estrutura das revoluções científicas. Seu objetivo era resolver o problema da ambigüidade do uso do termo “paradigma” na referida obra. Margareth Masterman, simpatizante de Thomas Kuhn, em seu ensaio A natureza de um paradigma, chegou a contar vinte e um sentidos do termo. Kuhn admite apenas dois. O conceito de “matriz disciplinar” dá conta destes dois sentidos. O primeiro sentido de paradigma é mais amplo do que o segundo, refere-se à “matriz disciplinar” como um todo. Kuhn apresenta quatro componentes da “matriz disciplinar”, a saber:
    1
    ° componente: as generalizações simbólicas (que são os componentes “formais ou facilmente formalizáveis”, como por exemplo,  F = ma (formal), ou ainda, “a uma ação corresponde uma reação igual e contrária” (formalizável) );
    2
    ° componente: os compromissos coletivos com crenças (refere-se, por exemplo, aos modelos heurísticos que uma determinada comunidade partilha);
    3
    ° componente: os valores (são partilhados mais amplamente que as generalizações simbólicas, por exemplo, o recurso à predições quantitativas, que é usado por várias comunidades científicas. Nesse sentido, os valores são características mais globais da idéia de paradigma. Além disso, questões como se a ciência deve ou não ter uma utilidade social são, segundo Kuhn, outra espécie de valor);
    4
    ° componente: trata-se das “soluções concretas que os estudantes encontram desde o início de sua educação científica, seja nos laboratórios, exames ou no fim dos capítulos dos manuais científicos” e ainda “as soluções técnicas de problemas encontráveis nas publicações periódicas”.
    Esse quarto componente Kuhn sintetiza por meio da expressão “exemplares”. São os “exemplares” o componente mais importante da “matriz disciplinar” e o sentido responsável pela própria escolha do termo “paradigma”. Os “exemplares” são o segundo sentido do termo paradigma anunciado no início desta nota. Podemos dizer, portanto, que o segundo sentido do termo paradigma é um subconjunto do primeiro.
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  8. KUHN, T. Op. Cit. p. 10.
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  9. Ibidem
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  10. KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1975. p. 111.
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  11. KUHN, T. Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa?, in LAKATOS, I. e MUSGRAVE, A. (org.) A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979 p. 11.
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  12. KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1975. p. 84.
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  13. Uma característica importante dos paradigmas é que eles são incomensuráveis, isto é, a linguagem de um determinado paradigma, seus termos técnicos, seus valores são peculiares e incomparáveis com o paradigma antecessor. A incomensurabilidade do paradigma em Kuhn tem alguma similaridade com o conceito wittgensteiniano de jogos de linguagem (Sprachspiel). O Segundo Wittgenstein entende um jogo de linguagem como um sistema de comunicação. O aprendizado da lingua nativa seria, para Wittgenstein, um bom exemplo de jogo de linguagem.
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  14. POPPER, K. O mito do contexto – em defesa da ciência e da racionalidade. Lisboa: Edições 70, 1999. p. 57.
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  15. POPPER, K. A ciência normal e seus perigos. in LAKATOS, I. e MUSGRAVE, A. (org.) A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979 p. 65.
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  16. Ibidem
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  17. POPPER, K. Conjecturas e refutações, Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1980. p.66.
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  18. Ibidem.
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