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Normalidade
e anormalidade na ciência:
Popper versus Kuhn
por
Kleber Vinicius Gonçalves Feio
Ex-aluno
da ceg, Professor da SEDUC e aluno do curso de especialização
em Epistemologia do Departamento de Filosofia da UFPA
(...)
Existe um grande elemento subjetivo no processo pelo qual as idéias
científicas passam a ser aceitas (...). Tudo isso é
uma velha história para os cientistas (apesar de os filósofos
e historiadores escreverem como se fôssemos completamente
ingênuos a esse respeito).
Steven Weinberg1
Karl Popper abre sua palestra intitulada A
ciência normal e seus perigos, reconhecendo que a crítica
de Thomas Kuhn à sua concepção de ciência
é a mais interessante que ele tinha encontrado. Popper diz,
no decorrer de sua exposição, que ele tinha sentimentos
de gratidão a Kuhn, pois, segundo Popper, o Professor Kuhn
havia aberto os seus olhos para uma série de problemas que
ele (Popper), “não tinha visto com
clareza”.2
Popper reconhece, ainda, de forma bastante contundente, que, “a
ciência ‘normal’, no sentido de Kuhn, existe”.3
A despeito de algumas semelhanças entre estas duas epistemologias,
a de Popper e a de Kuhn, como, por exemplo, a recusa do método
indutivo, há, entre elas, graves divergências.
O “estereótipo metodológico da falsificação”4
é tão inadequado para descrever a atividade normal
da pesquisa em Kuhn, como o é, para Popper, a tese segundo
a qual “ ‘normalmente’ temos
uma teoria dominante”5.
Para Popper, o cientista é um “solucionador de problemas”,
para Kuhn, o cientista é um “solucionador de enigmas”.
A similaridade entre o termo popperiano “problema” e
o kuhniano “enigma” é apenas aparente, como o
próprio Kuhn chama a atenção em seu ensaio
Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa?.
Popper desconfia de uma possível similaridade entre o uso
do termo “enigma” em Kuhn e o seu emprego em Wittgenstein.
Consideramos improcedente essa sugestão, e isso, por duas
razões. Em primeiro lugar, o uso do termo “enigma”,
que em Wittgenstein, como o próprio Popper observa, é
sinônimo de “problema filosófico”, só
se aplica à filosofia, não à ciência,
e Kuhn aplica o termo exatamente onde Wittgenstein não o
aplicaria. A ciência natural, onde há problemas
genuínos, não trabalharia com “enigmas”,
no sentido de Wittgenstein. A não ser que admitamos que Kuhn
faz uma inversão do sentido de “enigma” em Wittgenstein,
não poderemos entender os enigmas, com os quais o cientista
normal trabalha, como sendo enigmas wittgensteinianos. Em segundo
lugar, tanto no primeiro, como no segundo Wittgenstein, os enigmas
são sinônimos de contra-sensos. No Tractatus,
Wittgenstein diz que “o enigma não existe”
(TLP 6.5). Em outras palavras, o pensador austríaco quis
mostrar que os filósofos, por não compreenderem
corretamente o funcionamento da nossa linguagem, sempre propuseram
pseudoproblemas. Os problemas filosóficos seriam falsas questões.
Respondê-las seria tão absurdo quanto o é
formulá-las. O segundo Wittgenstein mantém esse ponto
de vista ao dizer que “a filosofia deixa tudo como está”
(PI §124). Ainda nas Investigações filosóficas,
Wittgenstein diz que a tarefa legítima da filosofia é
“mostrar à mosca a saída da garrafa”,
isto é, mostrar que os problemas filosóficos, suas
soluções ou “saídas”, são
ilusórias. A filosofia teria sido “enfeitiçada”
pela linguagem.
Não pensamos que, nesse ponto, Kuhn seja wittgensteiniano,
embora o seja em outro, como adiante mostraremos.
Independentemente dessa sugestão infeliz (que se reduz a
uma nota de rodapé do ensaio Os perigos da ciência
normal), com a qual nem o próprio Popper se compromete,
pois diz não saber se a comparação procede,
Popper compreedeu corretamente o sentido Kuhniano de “enigma”,
ou, pelo menos, o que nele há de fundamental. Popper compreende
que o cientista “normal”, de Kuhn, enfrenta problemas
de rotina, problemas de aplicação do paradigma e não
problemas “fundamentais”, já que ele não
testa o paradigma. É este, basicamente, o sentido de
“enigma” em Kuhn.
A diferença que Kuhn estabelece entre a sua concepção
de “enigma” e a concepção popperiana de
“problema” é esclarecedora. Também em
uma nota de rodapé, a nota 7 do ensaio Lógica
da descoberta ou psicologia da pesquisa?, Kuhn comenta o assunto.
Ele diz que a similaridade entre os dois termos em questão
“disfarça uma divergência fundamental”6.
Kuhn observa que os “problemas” da ciência em
Popper ocorrem devido a dificuldades e contradições
da teoria. O cientista, em meio a estas dificuldades, tem suas
expectativas decepcionadas e, por isso, precisa apresentar uma solução
para o problema descomprometida com a tradição. Os
“problemas” de Popper comprometem os modelos teóricos
em vigor, questionam aspectos fundamentais da teoria e prática
científica, é este, basicamente, o cientista como
“solucionador de problemas” em Popper. Kuhn compreendeu
muito bem a posição de Popper sobre o assunto. O cientista
“normal”, de Kuhn, contudo, enquanto “solucionador
de enigmas”, está preocupado apenas com problemas ordinários,
problemas de aplicação do paradigma. Nunca
está em questão, para o cientista normal, a validade
do paradigma. A “matriz disciplinar”7,
pelo menos no que nela há de fundamental, permanece intocada
nos testes realizados pelo pesquisador “normal”. Os
“enigmas”, de Kuhn, são desafios ao cientista
e não à validade da teoria. Nas palavras do próprio
Kuhn, “é ele (o cientista) quem está
em dificuldade, não a teoria vigente”8.
Os “enigmas” da ciência podem
ser comparados, segundo Kuhn, a “enigmas de palavras cruzadas
ou charadas de xadrez”9,
que desafiam apenas a habilidade da pessoa, não as regras
do jogo. No capítulo sete da Estrutura das revoluções
científicas, Kuhn ilustra este pensamento por meio do
adágio popular: “quem culpa suas
ferramentas é mau carpinteiro”10.
Desse modo, o fracasso do pesquisador em apresentar uma solução
para um problema da pesquisa “normal” desacredita somente
o cientista, não a teoria.
Segundo Kuhn, o conceito de ciência de Popper obscurece o
que há de mais peculiar na pesquisa “normal”.
Sir Karl – é assim que Kuhn se refere a Popper
no ensaio crítico em questão – teria caracterizado
a prática científica não com o que nela há
de mais comum e sim, justamente, com o que muito raramente acontece
na ciência, a saber, o debate crítico em torno da validade
da teoria vigente. Kuhn se diz descontente com o termo popperiano
“falseamento”, pois o cientista “normal”
teria um compromisso profundo com a tradição. A “falseabilidade”
de Popper descompromete o pesquisador com as crenças tradicionais
de sua especialidade de estudo. Segundo Kuhn, a história
da ciência seria o melhor contra-exemplo das idéias
de Popper, suficiente para desmentir-lhe a opinião. Popper
cita com freqüência, observa Kuhn, autores como Copérnico,
Lavoisier e Einstein, por exemplo, mas ele ignoraria o fato de que
as realizações científicas destes homens são
episódios raríssimos na história da ciência.
Caracterizam momentos especiais da ciência, não seu
estado de normalidade. São situações “extraordinárias”
e não situações “normais”. É
por isso que Kuhn estabelece a distinção fundamental
entre “ciência extraordinária” e “ciência
normal”.
A prática científica, tal como
Popper a descreve, ocorre, de fato, segundo Kuhn, mas só
“de vez em quando”11.
Quando surge, por exemplo, uma anomalia, um “fenômeno
para o qual o paradigma não prepara o investigador”12,
ocorre o que Kuhn chama de crise da ciência normal.
Isso não significa dizer que o aparecimento de contra-exemplos
implicará, de imediato, a rejeição do paradigma.
Os cientistas concebem articulações ad hoc,
sem o menor pudor, para salvar o paradigma. Diante de uma anomalia
o cientista tende a pensar que é sua pesquisa que está
errada, não o paradigma. Ele foi educado para pensar assim.
Por isso, o cientista usará todos os artifícios necessários
com o fim de adequar o novo caso ao paradigma dominante, ainda que
ele precise recorrer ao tão criticado por Popper, estratagema
convencionalista ad hoc.
A ciência normal, segundo Kuhn, é um empreendimento
não dirigido para novidades. O cientista normal não
está interessado em novas teorias e é, em geral, intolerente
com seus colegas que ousam apresentar novidades. O único
tipo de novidade aceito é aquele que aumenta o alcance e
a precisão com que o paradigma é aplicado. O cientista
normal tem compromissos conceituais, teóricos, metodológicos
e instrumentais com o grupo do qual faz parte. Sua tarefa é
resolver “quebra-cabeças”, isto é, articular
melhor o paradigma com a realidade. No capítulo cinco da
Estrutura das revoluções científicas
Kuhn chega a dizer que quando a ciência normal é bem
sucedida, ela não encontra novidades. A novidade seria, por
isso, uma ameaça à ciência normal. Seu progresso
depende da ausência total de novidades estruturais. É
a ausência de novidades que nos permitiria considerar a ciência
normal como um empreendimento altamente cumulativo.
Os momentos de crise, contudo, segundo
Kuhn, obrigam os cientistas a se tornarem filósofos. Os cientistas,
em geral, não se interessam por filosofia, nem precisam se
interessar. Nos perídos pré-paradigmáticos,
entretanto, quando é imperativo que o pesquisador escolha
entre teorias concorrentes, ele se comporta como filósofo.
A escolha do novo paradima está mais ligada à capacidade
de convencimento que à objetividade, no sentido
clássico. O novo paradigma aceito, em relação
ao anterior, seria incomensurável13.
Tendo em mente os conceitos básicos da epistemologia de Kuhn
apresentados acima, podemos entender a sua tese central do ensaio
Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa?, a
saber, de que elementos psicológicos e sociológicos
são determinantes na produção científica
normal. Não são aspectos lógicos ou metodológicos
da ciência os responsáveis pelo progresso científico
e sim os sistemas de valores e as ideologias, do lado
psicológico, e as instituições que transmitem
esse sistema de valores, do lado sociológico. Nesse sentido,
uma lógica da descoberta seria totalmente improdutiva
para dar conta do progresso científico.
Até aqui nossa exposição foi mais uma apresentação
das réplicas de Kuhn a Popper, que a apresentação
da tréplica de Popper. Mas seria inadequado falar
do ensaio de Popper Os perigos da ciência normal sem
comentar o texto de Kuhn que o motivou a escrever a referida tréplica.
Em primeiro lugar, a crítica segundo a qual Popper ignorou
a diferença entre o que Kuhn denomina “pesquisa normal”
e “ciência extraordinária” não procede.
É claro que a obra The logic of scientific discovery,
de Popper, foi publicada antes da The structure of scientifc
revolutions, de Kuhn, mas mesmo antes de Kuhn ter publicado
sua principal obra, Popper não ignorava a existência,
na atividade científica, de uma certa “estrutura organizada
de suposições”, que bem podem ser chamadas paradigmas,
no sentido de Kuhn. O prefácio de 1934 da Lógica
de pesquisa científica é suficiente para confirmar
isso. Lá, ao diferenciar o cientista do filósofo,
Popper mostra que os dois estão em posições
muito diferentes. Isso porque o filósofo se assemelharia
a alguém diante de um amontoado de ruínas, enquanto
o cientista vê-se diante de uma estrutura organizada, com
situações-problema bem definidas, com doutrinas científicas
já existentes e admitidas como tal. Popper reconhece, contudo,
que, na época em que publicou a referida obra, ele tinha
apenas uma obscura consciência da distinção
entre o que Kuhn chama “normal” e “extraordinário”
na ciência.
Popper foi um defensor do método hipotético-dedutivo,
que pode ser ilustrado no esquema abaixo:
P1 representa o problema do qual o cientista parte;
T. T. se refere às tentativas de solução;
E. E. representa a eliminação do
erro e, finalmente, P2 refere-se aos novos problemas
resultantes da nova teoria.
O mote da obra Lógica da pesquisa científica,
extraído de Novalis, diz “as hipóteses são
redes: só quem as lança colhe alguma coisa”.
O cientista, segundo Popper, sempre parte de uma conjectura, de
uma hipótese, portanto, de um referencial. Nesse sentido,
os referenciais desempenham um papel fundamental na investigação
científica. Contudo, não se deve, segundo Popper,
entender a importância que têm os referenciais como
se eles fossem dogmas com os quais os cientistas devem se comprometer.
No ensaio Os perigos da ciência normal, Popper retoma
um argumento já desenvolvido em um ensaio seu intitulado
O mito do contexto, argumento esse que combate a idéia,
segundo a qual, os “pressupostos básicos” não
devem ser discutidos para que haja progresso na ciência..
Ao falar de “contexto” (Framework), estrutura
ou referencial, Popper está pensando, principalmente, na
ciência normal de Kuhn. O que Popper chama de mito do contexto
é definido como um pensamento que defende a seguinte tese:
A
existência de uma discussão racional e produtiva é
impossível, a menos que os participantes partilhem um contexto
comum de pressupostos básicos ou, pelo menos, tenham concordado
em semelhante contexto em vista da discussão14.
Contra este pensamento, Popper sustenta que o aumento do conhecimento
depende da discordância, não do dogmatismo de ter
que aceitar um referencial comum. Culturas diferentes, são,
por exemplo, diferentes “contextos”, mas não
constituem barreiras intransponíveis. Dizer que, em ciência,
“pressupostos básicos” e “princípios
fundamentais” não devem ser discutidos, seria incorrer
em um irracionalismo. Com ou sem razão, Popper acusa Hegel
de ter sido o primeiro filósofo pós-kantiano a defender
o mito do contexto. Talvez Popper estivesse pensando, ao fazer esta
acusação, no conceito de Zeitgeist, isto é,
Espírito do tempo.
Segundo Popper, a ciência segue a tradição crítica
inaugurada pelos filósofos jônicos. Os jônicos
teriam dado uma contribuição indelével à
história da ciência ao adotarem o que Popper chama
de “método crítico”. Estes pensadores
não reproduziam as explicações de seus mestres.
Preservaram o método crítico justamente por desviarem-se
de seus mestres.
Para Popper, o verdadeiro cientista não é o “cientista
normal” de Kuhn. Segundo Kuhn, o cientista não é
educado para contestar o paradigma, os manuais o preparam
simplesmente para reproduzi-lo. Kuhn observa que os manuais diferem
apenas no aspecto pedagógico, não na estrutura conceitual.
Os estudantes universitários de alguma ciência nem
sequer lêem os clássicos. Deste modo, os manuais produzem
o que Kuhn chama de Einstelungen, isto é, as “predisposições
mentais” dos futuros cientistas. Embora Kuhn reconheça
o grave erro deste tipo de educação, pois, no capítulo
nove do livro Tensão essencial ele se mostra disposto
a considerá-la um “anátema”, Kuhn diz
que é este tipo de educação que prepara o “cientista
produtivo”. Se for verdade que o cientista produtivo é
alguém sem senso crítico e que está disposto
a defender o paradigma a todo custo, mesmo se for necessário
recorrer a hipóteses ad hoc, Kuhn deveria aceitar
a conclusão inequívoca que se segue deste raciocínio:
A comunidade científica é, fundamentalmente, uma
comunidade de falaciosos. Sabemos, contudo, que Kuhn jamais
aceitaria esta conclusão, embora ela seja forçosa,
se admitirmos suas premissas.
Como já dissemos, Popper reconhece que a tal “ciência
normal” existe. Contudo, ele nega que esse tipo de “ciência”
seja, de fato, normal. Segundo Popper, o “cientista
normal” foi mal ensinado, “foi ensinado com espírito
dogmático: é uma vítima da doutrinação”.15
O verdadeiro cientista é aquele que foge da rotina por meio
de um esforço crítico. Contra a comunidade científica
fechada em seu referencial, Popper diz que o compromisso com o um
paradigma é uma perigosa ideologia. Os referenciais ou contextos,
são, para Popper, como “prisões”. A comunidade
científica não pode ser fechada, tampouco autoritária.
Fundamentos e princípios devem ser discutidos, mesmo
que isso contrarie o mito do contexto.
Popper tem uma avaliação oposta a opinião de
Kuhn sobre as pessoas que vivem em um contexto fechado. O pesquisador
que não consegue se orientar sem a imposição
dogmática de um referencial não tem nada de “produtivo”,
como quer Kuhn. Segundo Popper, “o cientista
‘normal’, tal como Kuhn o descreve, é uma pessoa
da qual devemos ter pena”.16
A concepção kuhniana de ciência, segundo Popper,
conduz a um relativismo e, por isso mesmo, ao irracionalismo. O
físico Steven Weinberg, no capítulo intitulado Contra
a filosofia (capítulo dez) de seu livro Sonhos de
uma teoria final, também se queixa do relativismo de
Kuhn. Weinberg reconhece o mérito do conceito de “revolução
científica”, tal como Kuhn o apresentou, mas não
se reconhece na ingenuidade do “cientista normal”.
Pessoas que vivem em um contexto fechado, segundo Popper, têm
uma visão de mundo que não pode ser abalada. Esse
comportamento pretensamente científico foi duramente criticado
por Popper em seu livro Conjecturas e refutações.
Nesta obra, Popper denomina as pesquisas que seguem esta orientação
de verificacionistas. O verificacionismo caracteriza-se
pela interpretação dogmática dos fatos
“à luz da teoria”. Para um cientista verificacionista
qualquer contra-exemplo pode ser encaixado, de algum modo, na teoria.
Qualquer contra-argumento também pode ser rebatido “à
luz da teoria”. É clássica a acusação
de Popper de que Marx, Freud e Adler tenham sido verificacionistas.
Segundo Popper, no início do século XX, o marxismo,
a psicanálise e a “psicologia individual” eram
tidos como ramos da ciência com um sucesso maior que a teoria
da relatividade de Einstein. Popper, contudo, diz que ele desconfiava
da capacidade de explicação destas três
teorias. Elas pareciam explicar praticamente tudo em seus devidos
campos. A psicanálise, por exemplo, parecia ter uma objetividade
de dar inveja a um físico. Além disso, os seguidores
das idéias de Marx e Freud, por exemplo, eram, segundo Popper,
extremamente intolerantes com os críticos. Os críticos
de Marx eram vistos como motivados por um “interesse de classe”
e os críticos de Freud, como vítimas de “repressões
ainda não analisadas”. As pessoas que se dedicavam
a estas teorias pareciam, segundo Popper, ter se “convertido”
a uma nova verdade: viam o mundo inteiro repleto de verificações
da teoria. Segundo Popper, contudo,“é
fácil obter confirmações ou verificações
para quase toda a teoria – desde que as procuremos”.17
Esse tipo de “confirmação” torna a teoria
imune às críticas e, portanto, irrefutável.
A irrefutabilidade, segundo Popper, “não
é uma virtude, como freqüêntemente se pensa, mas
um vício”.18
Embora Kuhn também não admitisse a cientificidade
do marxismo ou da psicanálise, o comportamento do “cientista
normal” em relação ao paradigma é similar
ao do pesquisador verificacionista, descrito por Popper; o dogmatismo
do “contexto” é o mesmo: todos os casos podem
ser analisados à luz da teoria.
Para Popper, o relativismo de Kuhn compromete de forma contundente
a racionalidade da ciência. Kuhn nunca reconheceu-se como
relativista, mas, de fato, não parece ter dado uma resposta
satisfatória a seus críticos quanto à esta
acusação. O relativismo é, segundo Popper,
a tese lógica defendida por Kuhn. Não é
uma psicologia da pesquisa que Kuhn desenvolve, segundo Popper,
e sim uma tese lógica, a tese do relativismo histórico,
ainda que seja uma tese equivocada. Para Popper, a ciência
progride, de fato, mas não por se submeter a um paradigma
ideológico, e sim, em função do método
da refutabilidade. Assim, para Popper, a comunidade científica
é contituída por uma comunidade de pesquisadores,
cada um dos quais disposto a criticar, tão intensamente quanto
possível, a afirmação dos demais. Essa é
a única ciência legítima, renunciar este comportamento
seria renunciar à racionalidade.
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Weinberg foi o ganhador do prêmio Nobel
de Física em 1979 por seu trabalho de unificação
de duas forças fundamentais da natureza. A epígrafe
foi retirada do seu livro Sonhos de uma teoria final (WEINBERG,
S. Sonhos de uma teoria final: a busca das leis fundamentais da
natureza. Rio de Janeiro: Rocco: 1996. p. 146)
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-
POPPER, K. A ciência normal e seus perigos
in LAKATOS, I. e MUSGRAVE, A. (org.) A crítica e o desenvolvimento
do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979 p. 64.voltar
-
-
KUHN, T. A tensão essencial. Lisboa: Edições
70, 1989. p. 08.
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-
POPPER,
Op. Cit, p. 68.
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-
KUHN, T. Lógica da descoberta ou psicologia
da pesquisa, in LAKATOS, I. e MUSGRAVE, A. (org.) A crítica
e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix,
1979 p. 10.
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Kunh
introduz o conceito de “matriz disciplinar” no posfácio
de 1969 da sua obra A estrutura das revoluções
científicas. Seu objetivo era resolver o problema da
ambigüidade do uso do termo “paradigma” na referida
obra. Margareth Masterman, simpatizante de Thomas Kuhn, em seu
ensaio A natureza de um paradigma, chegou a contar vinte
e um sentidos do termo. Kuhn admite apenas dois. O conceito de
“matriz disciplinar” dá conta destes dois sentidos.
O primeiro sentido de paradigma é mais amplo do que o segundo,
refere-se à “matriz disciplinar” como um todo.
Kuhn apresenta quatro componentes da “matriz disciplinar”,
a saber:
1°
componente: as generalizações simbólicas
(que são os componentes “formais ou facilmente formalizáveis”,
como por exemplo, F = ma (formal), ou ainda, “a
uma ação corresponde uma reação igual
e contrária” (formalizável) );
2°
componente: os compromissos coletivos com crenças (refere-se,
por exemplo, aos modelos heurísticos que uma determinada
comunidade partilha);
3°
componente: os valores (são partilhados mais amplamente
que as generalizações simbólicas, por exemplo,
o recurso à predições quantitativas,
que é usado por várias comunidades científicas.
Nesse sentido, os valores são características
mais globais da idéia de paradigma. Além disso,
questões como se a ciência deve ou não ter
uma utilidade social são, segundo Kuhn, outra espécie
de valor);
4°
componente: trata-se das “soluções concretas
que os estudantes encontram desde o início de sua educação
científica, seja nos laboratórios, exames ou no
fim dos capítulos dos manuais científicos”
e ainda “as soluções técnicas de problemas
encontráveis nas publicações periódicas”.
Esse quarto componente Kuhn sintetiza por meio da expressão
“exemplares”. São os “exemplares”
o componente mais importante da “matriz disciplinar”
e o sentido responsável pela própria escolha do
termo “paradigma”. Os “exemplares” são
o segundo sentido do termo paradigma anunciado no início
desta nota. Podemos dizer, portanto, que o segundo sentido do
termo paradigma é um subconjunto do primeiro.
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KUHN,
T. Op. Cit. p. 10.
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KUHN,
T. A estrutura das revoluções científicas.
São Paulo, Ed. Perspectiva, 1975. p. 111.
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-
KUHN,
T. Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa?,
in LAKATOS, I. e MUSGRAVE, A. (org.) A crítica e o desenvolvimento
do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979 p. 11.
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-
KUHN,
T. A estrutura das revoluções científicas.
São Paulo, Ed. Perspectiva, 1975. p. 84.
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Uma
característica importante dos paradigmas é que eles
são incomensuráveis, isto é, a linguagem
de um determinado paradigma, seus termos técnicos, seus
valores são peculiares e incomparáveis com o paradigma
antecessor. A incomensurabilidade do paradigma em Kuhn
tem alguma similaridade com o conceito wittgensteiniano de
jogos de linguagem (Sprachspiel). O Segundo Wittgenstein
entende um jogo de linguagem como um sistema de comunicação.
O aprendizado da lingua nativa seria, para Wittgenstein,
um bom exemplo de jogo de linguagem.
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POPPER, K. O mito do contexto – em defesa
da ciência e da racionalidade. Lisboa: Edições
70, 1999. p. 57.
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POPPER,
K. A ciência normal e seus perigos. in LAKATOS, I.
e MUSGRAVE, A. (org.) A crítica e o desenvolvimento
do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979 p. 65.
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POPPER, K. Conjecturas e refutações,
Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1980.
p.66.
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